
Pedro Gomes, agricultor (Foto: Fred Carvalho/G1)
A pior seca dos últimos 100 anos no Rio
Grande do Norte está devastando as plantações de caju, uma das principais
atividades econômicas do estado. No município de Serra do Mel, um dos maiores
produtores de castanha de caju do país, a estiagem também tem sido implacável.
Sem água, as plantas desidratam e morrem. E sem ter o que colher, a solução
para o sertanejo é aproveitar o que resta: a madeira seca. Hoje, cortar galhos
e vender a lenha para fábricas de tijolos e telhas é o único jeito de se
conseguir dinheiro e botar comida na mesa (veja vídeo: http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2015/11/mortos-pela-seca-cajueiros-sao-cortados-e-viram-lenha-no-rn.html.)
“Uma carrada, que é um caminhão cheio, sai daqui
com 40 metros cúbicos de madeira cortada. Rende R$ 400. É isso o que
conseguimos faturar por semana. No final do mês, são R$ 1.600 no bolso,
dinheiro que vai sustentar a família”, explicou o agricultor Pedro Gomes, de 72
anos.
Dono de 15 hectares de terra, Pedro disse que em
2011 chegou a ter 4 mil pés de caju produtivos. "Naquele ano, vendi 30
toneladas de castanha para a cooperativa dos produtores de caju do município,
que exportou tudo para a Suíça. Foi uma época de fartura para todos nós. Era
tanto caju que chegou a fazer lama", brincou. De acordo com a Cooperativa
dos Beneficiários Artesanais de Castanha de Caju de Serra do Mel (Coopercaju),
uma tonelada de castanha beneficiada, pronta para o consumo, era exportada em
2011 a R$ 36 mil.
Mas, ainda de acordo com o próprio agricultor,
nestes últimos quatro anos a seca tomou conta de tudo e o tempo de boas safras
chegou ao fim. "Ano passado, para vocês terem uma ideia, colhi apenas 189
quilos. A castanha bruta (in natura) ainda consegui vender a R$ 3 o quilo. Este
ano, o pouco que deu meus netos comeram numa torrada só", contou.
Hoje, ainda de acordo com Pedro Gomes, dos 4 mil cajueiros que foram
plantados em suas terras, pouco mais de 40% ainda têm folhas nos galhos.
“O restante morreu. Estamos queimando, derrubando e cortando os pés.
Dói no coração ter que fazer isso, mas precisamos de dinheiro para
comer”, ressaltou.
“O pior é que a seca não é o único problema”, frisou o agricultor. Ele
lembra que os cajueiros que restaram ainda precisam conviver com a
mosca-branca, uma praga que aparece no período da floração. Como o Rio Grande do Norte
já está no quarto ano seguido de estiagem, a incidência do inseto é
ainda maior. E quanto maior a incidência da praga, menor a
produtividade. “É como se diz por aqui: depois da queda, o coice”,
lamentou.
João Duarte também perdeu boa parte da plantação. Presidente da
Coopercaju, ele disse que o município possui 1.196 produtores em um
total de 35 mil hectares de área plantada. "Mais da metade deste
território, cerca de 20 mil hectares, está improdutivo atualmente.
Morreu tudo. E cerca de 90% dos produtores estão sendo obrigados a
vender lenha para sobreviver. É uma realidade muito triste, mas é a mais
pura verdade. Eu já cheguei a colher 25 toneladas de castanha. Nestes
últimos quatro anos, porém, não consegui produzir sequer 2 mil quilos”,
afirmou.

Sem
chuva, produção de castanha de caju despenca; efeitos da estiagem são
vistos também nos galpões de armazenamento, que ficam quase vazios
(Foto: Anderson Barbosa/G1)
Produção em baixa, exportações em queda e prejuízos
O governo do estado renovou por mais seis meses o estado de emergência em razão da seca histórica que assola o interior potiguar. Segundo o decreto, publicado em setembro, os prejuízos com a estiagem somam mais de R$ 4,6 bilhões. Nestes últimos quatro anos, ainda de acordo com o documento, a produção agropecuária acumula uma queda de 57,54%. Quando o assunto é a cultura de subsistência, como o algodão e a produção de castanha de caju, a queda foi ainda maior: 60%.
O governo do estado renovou por mais seis meses o estado de emergência em razão da seca histórica que assola o interior potiguar. Segundo o decreto, publicado em setembro, os prejuízos com a estiagem somam mais de R$ 4,6 bilhões. Nestes últimos quatro anos, ainda de acordo com o documento, a produção agropecuária acumula uma queda de 57,54%. Quando o assunto é a cultura de subsistência, como o algodão e a produção de castanha de caju, a queda foi ainda maior: 60%.
O Rio Grande do Norte é o principal exportador de castanha de caju do
país. Em 2011, último ano que se registrou boas chuvas no estado, 5,7
mil toneladas de castanha de caju fresca e sem casca foram vendidas para
o exterior, o que representou um ganho de cerca de 50 milhões de
dólares. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior. No ano passado, já em emergência por causa da seca, o
RN mandou para fora do país pouco mais de 3,3 mil toneladas. O retorno
financeiro foi de U$ 20 milhões, também segundo o MDIC. Este ano, de
janeiro a outubro, pouco mais de 1,7 mil toneladas foram exportadas, com
faturamento de aproximadamente U$ 13 milhões até então.
Para tentar minimizar os efeitos da estiagem e os prejuízos com a
redução da safra, o Governo do Estado anunciou que serão investidos, até
o próximo ano, R$ 186 milhões em projetos para melhorar as cadeias
produtivas da agricultura irrigada, incluindo a cajucultura.
Além disso, a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca
(SAPE) informou que o objetivo também é beneficiar, por meio do programa
‘RN Sustentável’, 330 famílias de agricultores produtores de castanha
de caju e mel nos municípios de Apodi, Caraúbas e Severiano Melo.
“Os investimentos são de R$ 3,63 milhões, recursos que estão sendo
utilizado para adequar as cadeias produtivas em todos os seus processos,
desde a produção em si até a distribuição dos produtos. Questões sobre
como recuperar os pomares, enxame de abelhas, recuperação e adequação de
estruturas, corte da castanha, estufas de armazenamento, entre outros,
estão sendo abordadas pelo programa. Os técnicos realizam um estudo
completo do negócio, elaboram um diagnóstico e a partir daí montam um
plano de negócios para cada organização”, ressaltou.
O processo
Para conhecer todo o processo, passando pelo beneficiamento e seleção da amêndoa, o G1 foi a Mossoró, onde fica a Usibras, a maior fábrica de castanha de caju do Brasil (veja vídeo acima).
Para conhecer todo o processo, passando pelo beneficiamento e seleção da amêndoa, o G1 foi a Mossoró, onde fica a Usibras, a maior fábrica de castanha de caju do Brasil (veja vídeo acima).
Apesar dos prejuízos com os efeitos da seca, o Brasil ainda se mantém
como o terceiro maior produtor de castanha de caju do mundo. "Perdemos
apenas para o Vietnã e para um conjunto de países da África. E nós somos
o maior exportador e o maior comprador de castanha de caju in natura do
país", afirmou Edson Júnior, gerente industrial da Usibras.
Segundo o gerente, a Usibras também fabrica dois subprodutos da
castanha de caju. Um deles é o LCC - Líquido da Castanha de Caju, que é
utilizado como matéria-prima na indústria de tintas; o outro é a casca
da castanha, que vira combustível para caldeiras.

Fábrica da Usibras, em Mossoró, é maior exportadora de castanha de caju do país (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Edson Júnior disse que o quilo da castanha in natura varia, em média,
de R$ 3,30 a R$ 3,50. A compra da castanha bruta é o primeiro passo da
linha de produção. "Vem pra gente em sacas, transportadas por caminhões.
Depois são classificadas por tamanho. De cada 100 quilos, somente 20
deles são aprovados pelo processo de seleção e viram amêndoas de
qualidade para exportação", ressaltou o gerente. "No final de todo o
processo, uma caixa com 22 quilos de castanha de caju pode chegar a R$
500", afirmou.
O gerente acrescenta que a crise econômica que afeta o país também
atinge o setor. "Existe um lado bom, que é a alta do dólar. Como nós
exportamos em moeda americana, o preço final aumenta e faz o faturamento
crescer. Contudo, também temos que conviver com a seca. Como a estiagem
acaba com as plantações de caju, temos que importá-la, e isso também
faz aumentar os nossos gastos. Compramos castanhas de Gana, Costa do
Marfim, Benim e Burkina Faso", disse.
Ainda de acordo com o gerente da Usibras, o momento atual é de
preocupação. "Temos duas unidades de produção aqui no Brasil (uma em
Mossoró e outra na cidade cearense de Aquiraz) e uma de beneficiamento
de nozes em Nova Jersey, nos Estados Unidos, além de uma fábrica de
castanha de caju que estamos construindo em Gana. Juntas, elas somam
mais de 1.400 funcionários. Mas, já tivemos muito mais empregados.
Somente por causa da estiagem, tivemos que demitir mais de 600
funcionários nestes últimos dois anos aqui no país. Nosso alerta amarelo
está ligado. Pode ser que mais gente tenha que ser dispensada",
revelou.

Além da seca, mercado de castanha também sofre impacto com a crise financeira (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Blog do Sítio Floresta, Via G1.
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